Tese - Os fios do corpo e da palavra : imaginário, submissão e subversão em Uma duas, de Eliane Brum

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Autor: Giselle Silveira da Silva (Currículo Lattes)

Resumo

Esta tese analisa as imagens simbólicas dos fios presentes no romance Uma Duas (2011), de Eliane Brum, a partir da perspectiva dos Estudos do Imaginário. O objetivo é investigar como os fios do corpo e da palavra constituem uma rede simbólica que estrutura as relações entre maternidade, identidade e linguagem, evidenciando tensões entre submissão e subversão na experiência feminina. A pesquisa parte da hipótese de que os fios corporais, representados, sobretudo, pelo cordão umbilical, pelo leite materno e pelo cabelo, vinculam-se a experiências de fusão, dependência e aprisionamento simbólico, enquanto o fio da navalha surge como símbolo intermediário, cortando esse corpo, numa tentativa de separação do corpo da mãe. Já o fio da palavra configura uma possibilidade de elaboração da individuação e resistência. Como fundamentação teórica, a pesquisa apoia-se principalmente nos Estudos do Imaginário de Gilbert Durand, em diálogo com a Psicologia Analítica de Carl Gustav Jung, com estudos sobre o simbolismo dos fios e com a crítica feminista ginocêntrica. Inicialmente, são examinados os fios da vida, associados ao cordão umbilical e ao leite materno, cujas imagens revelam a ambivalência dos vínculos entre mãe e filha. Em seguida, analisam-se os fios do corpo, símbolos que expressam conflitos relacionados à constituição da subjetividade feminina, ao sofrimento psíquico. Na sequência o fio da navalha, vinculado às tentativas de separação. Por fim, investiga-se o fio da palavra, compreendido como espaço de elaboração simbólica da experiência e de ressignificação do trauma. A análise demonstra que os fios constituem o principal núcleo imagético do romance, articulando uma complexa trama de significados relacionados ao corpo, à maternidade e à escrita. Embora os fios corporais estejam predominantemente associados à submissão e à permanência de vínculos que dificultam a autonomia das personagens, a escrita emerge como um gesto de subversão capaz de transformar a experiência vivida em narrativa. Conclui-se que, em Uma Duas, a passagem da submissão à subversão não se realiza por meio da ruptura definitiva dos laços herdados, mas pelo movimento contínuo de reelaboração simbólica promovido pela palavra. Desse modo, a obra de Eliane Brum evidencia a potência da literatura como espaço de problematização das relações maternas, das representações do feminino e dos processos de construção da subjetividade.

TEXTO COMPLETO

Palavras-chave: Brum, Eliane, 1966-Durand, Gilbert, 1921-2012Literatura brasileiraRomanceImaginárioSimbolismoLinguagemMaternidadeEscritaCorpo femininoEstudos do imaginárioSimbolismo dos fios