Autor: Chénara Gonçalves de Araújo (Currículo Lattes)
Resumo
A literatura contemporânea brasileira tem se destacado por práticas narrativas que problematizam as fronteiras entre realidade e ficção, especialmente no campo das narrativas biográficas, autoficcionais e epistolares. Nesse contexto, o livro Vésperas, de Adriana Lunardi, emerge como um objeto privilegiado para a análise das articulações entre memória, invenção e construção do sujeito literário. A obra utiliza o formato de cartas fictícias para estabelecer diálogos com escritoras fundamentais da tradição literária, como Ana Cristina César e Júlia da Costa, criando um espaço híbrido, no qual o eu narrativo se refaz na interlocução com o outro. Esta pesquisa tem como objetivo analisar como Lunardi, ao utilizar a narrativa epistolar, subverte as fronteiras entre biografia e ficção, criando um espaço biográfico inovador e um discurso literário plural. A dissertação fundamenta-se na teoria do espaço biográfico de Leonor Arfuch, que concebe a identidade como um processo dialógico; na noção de campo literário de Pierre Bourdieu, que situa a produção de Lunardi em meio às tensões de legitimidade e inovação; e no conceito de dialogismo de Bakhtin, útil para entender a polifonia do texto epistolar. Além disso, as reflexões de Lira Neto e Sérgio Vilas-Boas sobre a escrita biográfica contemporânea são mobilizadas para discutir os desafios e as potencialidades da fabulação no relato de si. Os métodos de pesquisa contrastiva, multicasos e contrativo (Macedo, 2018) orientam a análise crítica dos contos, permitindo comparações e sínteses teóricas. Assim, esta dissertação objetiva aprofundar a compreensão sobre os modos pelos quais Lunardi reinventa o espaço biográfico e a narrativa epistolar, propondo novos diálogos entre tradição e contemporaneidade, memória e invenção, autoria e alteridade, contribuindo para o debate sobre os rumos da literatura brasileira atual.