Autor: Ana Lúcia Arruda Cardozo (Currículo Lattes)
Resumo
Esta dissertação analisa, sob uma perspectiva bakhtiniana, a obra O Acontecimento (2000; ed. bras. 2022), da escritora francesa Annie Ernaux, enfocando os signos ideológicos relacionados ao aborto.A narrativa, compreendida como autossociobiográfica, articula memória pessoal e dimensões coletivas, transformando uma experiência íntima de aborto clandestino na França dos anos 1960 em testemunho social e político. A análise qualitativa, bibliográfica e interpretativa mobilizou os conceitos de signo ideológico, heterodiscurso, excedente de visão e compreensão responsiva, de Mikhail Bakhtin e Valentin Volóchinov, em diálogo com comentadores contemporâneos, além de algumas proposições de teóricas feministas como Simone de Beauvoir, bell hooks, Lúcia Xavier, Bruna Benevides e Conceição Evaristo. O objetivo geral desta pesquisa é analisar de que modo o signo ideológico "aborto" se configura na obra O Acontecimento (2022), de Annie Ernaux, como elemento constitutivo da escrita autobiográfica, revelando as relações entre o discurso individual e as vozes sociais que o atravessam. Para isso: a) examinar, neste trabalho, como a experiência individual do aborto é construída discursivamente enquanto signo ideológico, evidenciando o entrelaçamento entre memória pessoal, vozes sociais e valores históricos; b) compreender de que forma a escrita autobiográfica de Annie Ernaux, à luz dos pressupostos bakhtinianos, evidencia que o relato íntimo é socialmente constituído, promovendo o deslocamento do eu para o nós, do privado para o público e do íntimo para o histórico, e permitindo que a narrativa funcione como espaço de resistência e de responsabilidade social. Os resultados indicaram que o aborto é construído como um signo ideológico em disputa, atravessado por valores sociais, jurídicos, religiosos e pelo discurso médico, refletindo desigualdades de classe, interditos institucionais e o silêncio imposto às mulheres. Ao objetivar uma escrita sóbria e documental, Ernaux, com seu estilo autobiográfico, inscreve sua obra como gesto político de resistência, convertendo a dor pessoal em denúncia coletiva. Dessa forma, a pesquisa evidencia que a literatura, quando contemplada a partir da teoria bakhtiniana, constitui um espaço privilegiado de reflexão crítica sobre corpo, gênero, memória e ideologia, iluminando debates contemporâneos sobre autonomia feminina e direitos reprodutivos.